Como aprendemos aqui no blog do Programa Papagaios do Brasil, há várias espécies de papagaios do gênero Amazona que estão ameaçadas de extinção. As ameaças mais importantes são: 1) a destruição e perda de habitat onde as espécies ocorrem e 2) a captura ilegal. No texto de hoje vamos focar na captura ilegal e como a Genética pode auxiliar a planejar ações contra essa ameaça aos nossos Papagaios. Para isso, vamos exemplificar com dois casos.

No Brasil a maioria dos Papagaios apreendidos do tráfico ilegal é filhote, mas ovos também são retirados da natureza. Quando esses ovos são apreendidos, são colocados em incubadoras artificiais com o objetivo de permitir o desenvolvimento do embrião até sua eclosão para identificar a espécie a qual corresponde. Essa informação é importante, pois pode ser uma espécie ameaçada e esse indivíduo pode ser muito precioso para algum programa de conservação. No entanto, algumas vezes os embriões não resistem. Nesses casos, como embriões das diferentes espécies de Papagaios são visualmente indistinguíveis, podemos usar a Genética para identificar a espécie. O DNA do embrião é analisado por meio de uma pesquisa em um banco de dados de DNA de diversas espécies previamente identificadas. Ou seja, se algum DNA do banco de dados for idêntico ou muito parecido com o DNA do embrião, inferimos que o embrião pertence à essa espécie. Isso ocorreu com uma pessoa que estava saindo do Brasil com ovos e sem a devida documentação. A maioria dos ovos (50 dos 58) eram de uma única espécie de Papagaio, o que pareceu indicar que havia uma encomenda por uma determinada espécie. Nesse caso específico, a espécie não é considerada ameaçada e essa pessoa ficou presa por alguns dias. Infelizmente crime ambiental é considerado de baixo potencial ofensivo e a punição não chega a coibir a reincidência desse tipo de ato ilegal.

Um segundo exemplo envolve espécies que podem apresentar alguma diferença genética associada a onde ocorrem. Chamamos isso de diferenciação genética populacional. Isso é observado em uma espécie da mesma família dos Papagaios, a Arara-azul-grande. Ao analisar geneticamente amostras de araras-azuis-grandes de várias localidades, foi observada diferenciação genética populacional entre araras amostradas em três grandes regiões: 1) o Pantanal sul, 2) o Pantanal norte, e 3) o norte e nordeste de sua distribuição. Ou seja, araras-azuis-grandes do Pantanal sul são geneticamente diferenciadas de araras-azuis-grandes do Pantanal norte e também do norte e nordeste; e assim por diante. Uma vez que há diferenciação genética populacional foi possível estimar a probabilidade de indivíduos apreendidos serem provenientes de cada uma dessas populações. Essa probabilidade foi estimada comparando a composição genética das araras apreendidas com a composição genética de araras-azuis-grandes com origem conhecida. Assim, foi possível sugerir de onde essas araras apreendidas possuem maior probabilidade de terem sido retiradas. O interessante desse caso foi que resultados das análises genéticas podem ser congruentes com diferentes tipos de apreensões de indivíduos capturados ilegalmente. Há apreensões associadas a moradores locais que querem ter a companhia de algum animal silvestre. Há outras que possivelmente envolvem comercialização e que geralmente estão associados a maior número de indivíduos apreendidos. Além disso, há casos de apreensões realizadas fora da região de origem dos indivíduos retirados da natureza, ou seja, a apreensão ocorreu em algum ponto ao longo da rota do tráfico. Essas informações podem ajudar as autoridades ligadas à proteção do meio ambiente a planejar ações de fiscalização mais efetivas. Por exemplo, conhecendo a rota do tráfico, ações de fiscalização podem ser realizadas em pontos-chave. E talvez o mais importante, a ação pode ser planejada de modo a resolver o problema na sua origem, ou seja, aumentando a fiscalização nas áreas onde a retirada de indivíduos é maior. No caso de algumas espécies de Papagaios que já foram estudados, não foi encontrada diferenciação genética populacional que permita realizar esse tipo de análise. Pode ser que essa diferenciação exista, mas que ainda não a detectamos. Alternativamente, se não há diferenciação genética populacional significa que não há subdivisão em populações dentro dessas espécies e, com isso, o manejo envolve uma única unidade com muitos indivíduos. Em termos de conservação o manejo de uma única unidade é menos complicado do que o manejo separado de populações (unidades) diferenciadas. Assim, a conservação de espécies sem diferenciação genética populacional pode ser menos complexa.