Papagaios-de-cara-roxa. Foto: Zig Koch

O Brasil lidera o placar mundial com maior diversidade de psitacídeos, família dos papagaios, araras e periquitos e você, leitor do blog vai gostar de saber que temos também o privilégio de abrigar o maior número de papagaios do gênero Amazona, totalizando 12 espécies de um total de 32, em todo o continente americano.

Lamentavelmente, também somos recordistas em número de papagaios ameaçados, seja pelo tráfico, como pelo desmatamento, entre outras ameaças.  Para tentar reverter essa situação, precisamos sempre buscar melhorar nosso conhecimento, preferencialmente aplicando as técnicas e ferramentas científicas disponíveis.

A boa notícia é que temos projetos que atuam desde a década de 90 com pesquisa e conservação de quatro das espécies de papagaios que compõe o Programa Papagaios do Brasil. São eles: papagaio-charão (Amazona pretrei), papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis), papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea) e papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) sobre os quais muito já se descobriu. Mesmo com todo esse conhecimento, identificamos a necessidade de simular o futuro possível dessas populações como um caminho para entender melhor de que forma as ameaças as afetam e assim, definir as estratégias para protegê-las de forma mais eficiente.

Essa simulação do futuro provável tem o nome técnico de Análise de Viabilidade Populacional (AVP), que é uma projeção das possíveis dinâmicas de uma população de acordo com seus parâmetros atuais (p. ex. número de indivíduos, taxa de reprodução, etc.) ou para simular o efeito de uma determinada ameaça como, por exemplo, mudanças climáticas ou doenças.

De forma simplificada, a ideia é avaliar se, dadas as condições atuais, o número de papagaios das quatro espécies que mencionamos irá aumentar, diminuir ou continuar da forma como está daqui a alguns anos: 5, 10 ou mesmo, 100 anos.

Para isso, contamos com um programa de computador chamado Vortex. O Vortex foi elaborado por pesquisadores com grande experiência em ciências como biologia e genética de populações, evolução e computação. Inúmeros profissionais já utilizaram essa ferramenta de forma que ela é amplamente utilizada para avaliações do risco de extinção de uma espécie, entre outras aplicações.

Em dezembro de 2019 realizamos uma primeira oficina presencial para começar essa avaliação. O trabalho foi retomado em junho em uma etapa virtual, mantendo o isolamento que as circunstâncias atuais exigem. Estamos trabalhando com um grupo de 19 pessoas de diversas instituições, entre especialistas e modeladores. Contamos com os principais especialistas de cada espécie, que dedicam sua vida a estudá-las. De lá para cá, já fizemos mais de 30 reuniões e seguimos, discutindo e analisando com bastante cuidado cada um dos dados que foram e continuam sendo inseridos no programa.

Outra questão que merece destaque neste processo é a possibilidade de simularmos o efeito das ameaças atuais como, por exemplo, qual o impacto do tráfico de filhotes ou perda de habitat, bem como simularmos cenários do impacto de ameaças que ainda não aconteceram ou mesmo, de catástrofes. Por exemplo, drásticas mudanças climáticas, desmatamentos e queimadas em larga escala ou surtos de doenças.  Da mesma forma, podemos simular cenários de para avaliar as possíveis estratégias de manejo, como uso de caixas ninho para melhorar a reprodução dos papagaios. Essas simulações nos dão a chance de nos prepararmos melhor para enfrentar essas ameaças.

Todo esse processo de elaboração do AVP dos Papagaios ainda está em andamento e pretendemos finalizá-lo ainda em 2020. Esse resultado vai ajudar na avaliação do risco de extinção nacional dessas espécies e nos planos de ação para conservação em 2021. E quando estivermos com tudo pronto, voltaremos aqui para compartilhar os nossos resultados.

Marina Somenzari

Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres – CEMAVE/ICMBio

Fabiana Lopes Rocha

IUCN SSC Grupo Especialista em Planejamento de Conservação – CPSG Brasil

O processo de análise de viabilidade populacional dos papagaios vem sendo organizado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (ICMBio/Cemave) juntamente com o Grupo Especialista em Planejamento de Conservação (Conservation Planning Specialist Group – CPSG) da UICN CSE e conta com a colaboração de profissionais de diversas instituições: ESALQ-USP; Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia – FMVZ/USP; Ferramentas Fundamentais para a Conservação de Espécies (Species Conservation Toolkit Initiative – SCTI) da IUCN; Fundação Neotrópica do Brasil; Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo – MZUSP; Parque das Aves; Projeto Charão da Associação Amigos do Meio Ambiente – AMA; Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental – SPVS e UNESP São Vicente;.

Categorias: Psitacídeos

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