Migração acontece no outono 

Papagaio-charão | Foto: Haroldo Palo Jr.

Considerada a única espécie de papagaio migratória no Brasil, o papagaio-charão (Amazona pretrei), habita parte da região sul do Brasil – Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O charão é uma das seis espécies ameaçadas – em diferentes graus – de extinção contempladas pelo Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Papagaios (PAN Papagaios), apoiado pelo programa Papagaios do Brasil.

O papagaio-charão pode em diferentes altitudes, com relação ao nível do mar. É possível encontrá-lo no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. De acordo com o coordenador do projeto Charão, que completa 30 anos de existência em 2021, Jaime Martinez, a migração acontece todos os anos, por conta da alimentação. ‘‘A espécie se desloca dos locais de reprodução, atualmente conhecidos apenas no Estado do Rio Grande do Sul, para os locais de alimentação, em Santa Catarina’’, diz. ‘‘Isso acontece entre os meses de abril a julho, para que a espécie obtenha esse importante recurso alimentar que são as sementes da Araucária, o pinhão’’, afirma. Segundo Martinez, a migração acontece após os filhotes terem uma capacidade de voar mais desenvolvida.

O deslocamento da espécie se dá porque o planalto de Santa Catarina é uma das principais regiões do Brasil onde há grandes áreas remanescentes de floresta com araucária. Sua principal fonte de energia nesse período, apesar de que nesta época, essas aves se alimentam, principalmente, de pinhão, o charão também utiliza frutos, sementes e folhas de outras espécies vegetais.

Além de disponibilizar o alimento para o charão, o pinheiro brasileiro também fornece alimento para os seguintes animais: cutias, pacas, serelepes, gralhas, papagaio-de-peito-roxo, macaco bugio, gralhas, ouriço e tantas outras espécies. 

Por isso e por outros motivos, preservar o pinheiro-do-brasil é importante por conta da floresta com Araucária, que também abriga esses animais.

Araucária tem a principal fonte de energia para o papagaio-charão, o pinhão | Foto: SPVS

Observação

O período de migração do papagaio-charão já está encerrando. Apesar disso,  pessoas interessadas em ver esse fenômeno da natureza – fora do período de pandemia – também podem acompanhar a chegada dos charões. O período para essa observação é entre os meses de abril e maio.

Charões em uma araucária  | Foto: Elinton Rezende

Turismo

Algumas das cidades pelas quais o papagaio-charão passa durante sua chegada ou partida, têm feito com que a observação desse fenômeno se reverta em turismo local. Urupema, Painel e Urubici, em Santa Catarina, por exemplo, são pequenas cidades com populações entre dois e 11 mil habitantes, que têm ou podem ter a observação da espécie do charão como uma de suas fontes de renda, além do ecoturismo e da venda de pinhão. Em Urupema, todos os anos, normalmente no mês de abril, durante um fim de semana, a prefeitura da cidade organiza o festival do papagaio-charão e do papagaio-de-peito-roxo.

No evento, é possível participar de oficinas de fotografia, recreação para crianças e, ainda, conferir apresentações artísticas e receber informações sobre os papagaios. São festivais assim que ajudam na conscientização da população para a importância das espécies. De acordo com Jaime, promover a espécie na natureza dessa e de maneiras similares com a educação ambiental, por exemplo, ajuda no combate à exploração das florestas e na captura de filhotes para o tráfico de animais. Segundo o especialista, a conscientização de moradores das cidades por onde o papagaio-charão transita, tem sido feita há 20 anos. As informações são dadas com o uso da educação ambiental em escolas e nas comunidades no entorno das áreas preservadas. Assim, os habitantes se envolvem nas ações do projeto e nos eventos do Festival, apreciando esse fenômeno em conjunto com os visitantes.

Curso Resgate, ministrado pelo Projeto Charão | Foto: Divulgação/Projeto Charão

Principais ameaças

Por conta de vários fatores, 2020, foi o ano mais fraco de produção de pinhão, em Santa Catarina, nos últimos dois anos e meio. De acordo com o especialista, vários fatores influenciam nesta produção: o vento, a chuva, entre outros. O desenvolvimento de uma pinha, que gera o pinhão, por exemplo, leva cerca de dois anos e meio. Para que isso ocorra, no momento da polinização, é preciso ter uma boa quantidade de vento.

A colheita e o aumento do consumo nacional de pinhão podem ser um problema, já que com isso, a espécie pode ficar vulnerável. ‘‘A cada ano que passa, existem mais pessoas que gostam de comer pinhão e de toda culinária em torno dele’’, afirma o especialista. ‘‘E nós ainda temos essa deficiência de falta de pessoas que plantam araucária para colher o pinhão, já que toda colheita acontece, atualmente, no ambiente natural’’, conclui. Apesar disso, é preciso lembrar que é possível ajustar o consumo da semente de uma maneira sustentável e da conservação das florestas e das espécies para que uma não afete negativamente a outra.

Além disso, a falta de cavidades adequadas para a espécie é outro problema. ‘‘Árvores velhas que estão caindo e antes serviam de abrigo, não estão sendo substituídas com um reflorestamento, por exemplo’’, fala Martinez.

A ameaça de captura de filhotes para o comércio ilegal foi, por muito tempo, uma das maiores para o papagaio-charão. Graças ao projeto, no entanto, os registros de captura dessa espécie diminuíram consideravelmente. ‘‘Acreditamos que foi o resultado de mais de 20 anos de trabalhos feitos em escolas, em comunidades e em meios de comunicação para conscientizar’’, afirma o coordenador.




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