A degradação de florestas também é uma das causas prováveis da ocorrência de zoonoses

Papagaios apreendidos no Iguape/SP | Foto: Roberta Boss

O mundo não estava preparado para enfrentar uma pandemia com as proporções do novo coronavírus (Sars-CoV-2), agente infeccioso causador da COVID-19. Este vírus tem sua possível origem ligada a um mercado livre de animais selvagens em Wuhan, na China e vem alterando a relação social humana e o comércio em diversos países nos últimos meses. Mas qual a relação direta entre animais silvestres e enfermidades como essa que acometem toda a população? Segundo a Médica Veterinária Tânia de Freitas Raso, professora associada do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP), a interferência humana na natureza de forma desordenada é parte da resposta.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), 61% dos organismos causadores de doenças em seres humanos são transmitidos a partir de animais vertebrados. Essas enfermidades são as chamadas zoonoses. “As zoonoses em geral são resultantes de condições diversas, tais como crescimento urbano desordenado, desmatamento, agropecuária, trânsito de animais e pessoas e, principalmente, pela maior convivência e uma interação muito próxima dos seres humanos e animais domésticos com os animais silvestres”, explica a pesquisadora, que também ministra a disciplina de Medicina de Aves Silvestres na USP.

“No caso de aves (comerciais ou silvestres), a transmissão pode ocorrer por manipulação ou contato com as mesmas, suas secreções e produtos derivados (carne, processados, etc.); por ingestão de água e alimentos contaminados ou, a forma mais comum, por inalação, devido à presença de partículas no ar contaminadas com o microrganismo. Os microrganismos mais frequentes são vírus, bactérias ou fungos”, afirma. As aves podem transmitir algumas doenças com potencial zoonótico, como a salmonelose, campilobacteriose, influenza aviária, psitacose e micobacteriose, entre outras.

Consequências do tráfico de aves na saúde humana

No Brasil, a zoonose mais comumente relacionada aos psitacídeos (papagaios, periquitos e araras) é a chamada psitacose ou clamidiose. “Os casos observados, em geral, são decorrentes das apreensões de grandes números de aves do tráfico”, relata.

Filhotes de papagaios-verdadeiro apreendidos do tráfico em Jateí/MS | Foto: Projeto Papagaio Verdadeiro (Nara Pontes)

A Médica Veterinária explica que, durante o transporte clandestino, as aves, em sua maioria filhotes, são mantidas em pequenos espaços fechados, como caixas, em condições precárias de higiene e com uma grande quantidade de indivíduos confinados. “Esses fatores são estressantes para elas e propiciam a disseminação da bactéria Chlamydia psittaci, causadora da psitacose. As pessoas que manipulam animais nestas condições têm alta probabilidade de se infectarem e adoecerem, assim como aqueles que os adquirem de forma ilegal. Deste modo, fica claro como as ações ilícitas e prejudiciais ao meio ambiente e às aves podem atingir, de forma reversa, o ser humano”, completa.

Tânia faz um alerta, “a pessoa que deseja adquirir uma ave silvestre deve procurar um criador legalizado para isso. Também pode ajudar a combater o tráfico denunciando irregularidades para a autoridade ambiental do seu estado para que as devidas providências sejam tomadas”.

A influência do ambiente na saúde animal

A ciência tem papel fundamental para a proteção das espécies e garantia da saúde pública como um todo. Nesse sentido, diversos estudos com espécies de diferentes origens (cativeiro, tráfico e vida livre) são conduzidos no Laboratório de Ecopatologia de Aves da FMVZ/USP. Segundo a pesquisadora, a presença de alguns dos patógenos mais relevantes é analisada em aves de cada um destes grupos e a partir deste perfil é possível verificar como as diversas condições impostas pelo manejo, tipo de estrutura, alimentação, idade, procedência, densidade populacional, transporte e até mesmo o stress, podem afetar a ocorrência de determinadas doenças. Os estudos em aves em cativeiro “são indicativos das ameaças as quais elas foram ou estão sendo submetidas. Assim, é possível prever os riscos e tentar minimizá-los em busca de uma melhor conservação das espécies em vida livre”, explica Tânia.

Os papagaios e outras espécies em seus habitats naturais em geral apresentam uma condição de baixa circulação de patógenos, especialmente quando comparadas àquelas oriundas de cativeiro ou do tráfico para comercialização ilegal. “A obtenção de dados sobre a saúde das aves em cativeiro é de suma importância, pois sinaliza que temos que redobrar os cuidados para que não ocorra a introdução e, consequente disseminação, de determinados microrganismos nas populações que vivem na natureza”, comenta.

Tânia de Freitas Raso | Foto: Acervo pessoal

Programa Papagaios do Brasil e PAN Papagaios

Do ponto de vista da medicina veterinária, Tânia destaca as convergências entre as ações de conservação do Programa Papagaios do Brasil e algumas ações especificas do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Papagaios (PAN Papagaios) que “possibilitam ampliar o conhecimento científico sobre o estado de saúde das populações [de seis espécies de papagaios brasileiros] em suas áreas de ocorrência. A partir deste monitoramento de saúde no ambiente natural, associado ao conhecimento resultante do monitoramento em cativeiro, é possível inferir quais são os maiores riscos de introdução e de disseminação de doenças em vida livre e, consequentemente, estabelecer medidas mais assertivas de manejo visando a conservação da biodiversidade”.

Conselho

A professora e pesquisadora incentiva que os estudantes de medicina veterinária interessados em aves silvestres e/ou por sua conservação “pensem de forma ampla e multidisciplinar, procurando aprender sobre os aspectos biológicos, ambientais e sociais envolvidos com a espécie (ou grupo) de interesse”.

Aos profissionais da área, Tânia aconselha “não se restrinjam ao conhecimento técnico veterinário, procurem novas interações multidisciplinares e se mantenham sempre atualizados. Deste modo, suas ações e senso crítico serão desenvolvidos e estabelecidos com maior clareza e responsabilidade”, finaliza.

Ajude a conservar as espécies nativas do Brasil e denuncie a captura e comércio ilegal para a Linha Verde do Ibama: 0800-61-8080 (ligação anônima e gratuita).

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