Primeiro contato de muitas pessoas com a vida selvagem, os zoológicos são parceiros dos projetos de conservação na natureza

Foto: Parque das Aves

Os zoológicos são amplamente conhecidos como locais turísticos e educativos. No entanto, poucos sabem do seu potencial científico e de conservação da biodiversidade, principalmente de espécies ameaçadas de extinção. “O que nos move é mostrar a importância da relação sustentável entre as pessoas e a natureza, resgatar a conexão da humanidade com o meio ambiente. Acreditamos que, assim, poderemos coexistir com todas as outras espécies que dividem o planeta conosco”, explica Katlin Fernandes, bióloga e assistente do Núcleo de Conservação do Parque das Aves.

De coleções que representavam poder, influência e riqueza no passado e visavam apenas exibir animais exóticos, os zoológicos evoluíram consideravelmente no último século. A partir dos anos 70, um movimento inaugurou uma nova forma de pensar com relação aos zoológicos, que representam a única oportunidade de contato que a maioria das pessoas têm com animais silvestres de médio e grande porte.

Durante esta época, surgem os chamados “zoológicos modernos”. O bem-estar dos animais passa a ser o foco central, iniciando um processo de “enriquecimento ambiental” com recintos maiores e opções para que eles possam interagir com o ambiente, lidando com desafios semelhantes aos que encontrariam na natureza.

A preocupação também se estende ao público que visita os animais, desenvolvendo uma comunicação capaz de levar conhecimento sobre as espécies e sobre como as pessoas podem contribuir com sua proteção. “É neste momento que temos a oportunidade de explicar como são realizadas as nossas ações de conservação e contar histórias dos animais que vivem ali — incluindo aqueles que foram vítimas de tráfico e outras situações de maus-tratos ou acidentes causados pelas atividades humanas”, relata Tays Dayane Izidoro, integrante da Secretaria Executiva da Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (AZAB).

Katlin Fernandes em uma atividade de educação ambiental, sobre o mutum-de-alagoas com o público visitante no Parque das Aves | Foto: Parque das Aves

Avanços na conservação

Nos últimos anos, os zoológicos também tiveram outras conquistas importantes que ajudaram no desenvolvimento de técnicas para conservação e proteção de espécies. “Além de novos softwares e técnicas, a experiência entre os profissionais da área também foi aprimorada, capacitando pessoas para coordenar estes programas em todo o mundo, inclusive no Brasil”, destaca Cláudia Almeida Igayara de Souza, presidente da AZAB.  Cláudia aponta, principalmente, avanços como o de softwares que auxiliam no gerenciamento de populações e análises estatísticas e da genética molecular, o que tornou possível o acesso a informações essenciais para entendimento e organização das espécies.

Também foram criados diversos protocolos, manuais, guias e estratégias que funcionam como diretrizes para o estabelecimento de um programa de conservação ex situ (fora da natureza). É preciso definir onde será a coordenação do programa, para centralizar e gerenciar todas as informações enviadas pelas instituições participantes, além de analisar a população periodicamente para verificar seu status. Assim, as instituições participantes do programa de conservação ex situ têm um ponto focal onde consultar as próximas ações de manejo a serem realizadas, tornando o programa integrado e cooperativo.

Foto: Parque das Aves

Para a equipe do Parque das Aves, esse trabalho integrado e com ações conjuntas é muito importante porque permite contar com a experiência de vários profissionais e adotar procedimentos já conhecidos em outras instituições. “O objetivo é melhorar nossas práticas, oferecendo o melhor para os animais que estão sob nossos cuidados”, destaca Paloma Bosso, médica veterinária e diretora técnica do Parque das Aves.

Papel fundamental

A atuação dos zoológicos é pautada em quatro pilares: lazer, educação ambiental, pesquisa e conservação e, desta forma, podem contribuir com a conservação de espécies na natureza. Este é o caso dos zoológicos que participam dos programas de conservação integrada, que colocam sua estrutura e profissionais à disposição para contribuir por exemplo com a reintegração de espécies na natureza. De acordo com Tays Izidoro, para algumas espécies é necessário estabelecer uma população viável de segurança — que possa se manter sozinha em sua área natural — e avaliar a capacidade de suporte dessa região, para saber se existem condições suficientes para a reintrodução ou se são necessárias ações para recuperação do local.

No Parque das Aves são promovidos diferentes trabalhos e projetos que integram o trabalho da instituição com os visitantes à pesquisa de campo em prol da conservação de aves da Mata Atlântica. Além do trabalho fora da natureza (ex situ), a instituição também apoia, coordena e executa projetos de conservação na natureza (in situ). “Os profissionais do Parque pesquisam sobre a biologia e formas de combater ameaças às espécies. Desse modo, desenvolvem técnicas com as aves que precisarem de cuidados e ações de educação sobre como atuar em sua conservação”, explica Ben Phalan, biólogo e chefe do Núcleo de Conservação do Parque das Aves.

Um exemplo é o grupo Guardiões do Chauá, em Águas Formosas, no nordeste de Minas Gerais. O papagaio-chauá (Amazona rhodocorytha) é uma espécie ameaçada, que já não é mais encontrada em grande parte das regiões onde habitava. Por meio de um levantamento das áreas onde a espécie ainda poderia existir, pesquisadores descobriram que a espécie ainda ocorre nessa região, mas sofrendo ameaças — como a retirada de filhotes do ninho para o comércio ilegal — e correndo o risco de ser extinta localmente.

Guardiões do Chauá em formação – aprendendo sobre o trabalho de campo com os pesquisadores | Foto: Parque das Aves

O Projeto Papagaio-chauá, atualmente coordenado pelo Parque das Aves, foi até a região para monitorar a espécie e desenvolver ações com a comunidade.  “O que encontramos foi um grupo de pessoas engajadas que gostam muito desse papagaio e que, como nós, têm muita vontade de cuidar para que essa espécie não desapareça da natureza”, conta Katlin Fernandes. “Formamos então os Guardiões do Chauá, grupo de estudantes de ensino médio que aprenderam como os pesquisadores trabalham e agora contribuem com a conservação da espécie. Temos certeza de que com essa parceria todos saem ganhando muito, principalmente o papagaio-chauá”.

Foto: Parque das Aves

A equipe do Parque também destaca que uma das maiores contribuições dos zoológicos é ajudar a salvar espécies da extinção, como é o caso do mutum-de-alagoas (Pauxi mitu). O mutum-de-alagoas sumiu da natureza nos anos 1980, por causa da caça e da destruição da Mata Atlântica na região de distribuição da espécie. O criador Pedro Nardelli resgatou alguns dos últimos indivíduos restantes na natureza e a partir deles foi constituída uma população de mutuns, em criadores e zoológicos, e graças a isso a espécie ainda existe. “Tem muitos outros exemplos no mundo inteiro de espécies salvas por zoológicos, incluindo o órix-da-arábia (Oryx leucoryx), o condor-da-califórnia (Gymnogyps californianus), e muitas outras. Com espécies que estão criticamente em perigo de extinção, estabelecer uma população sob cuidados humanos pode ser a única ou a melhor opção para sua sobrevivência”, relata Benjamin Phalan.

Futuro dos zoológicos

Como vimos, o trabalho dos zoológicos com o manejo, cuidado direto de espécies ameaçadas e pesquisas sobre a biologia dos animais, contribuí com o trabalho dos pesquisadores em campo e engajamento do público visitante por meio de ações educativas, sendo fundamental para a conservação e para combater as causas que ameaçam a biodiversidade local. “Desenvolver essas ações pode levar muito tempo, e tempo é um recurso que as espécies ameaçadas de extinção não têm”, afirma Cláudia Igayara.

Foto: Gabriel Marchi

Para a Presidente da AZAB, nos próximos anos teremos um salto de qualidade no trabalho dos zoológicos e aquários, tanto em termos de conservação quanto em bem-estar.  “Os programas de educação serão a voz dessas ações, mostrando a verdadeira função dessas instituições na proteção e conservação da nossa fauna e de seus habitats naturais.  Cada pessoa que visita um zoológico ou aquário está colaborando para que todo esse trabalho seja possível”, aponta.

A equipe do Parque das Aves também vê a conservação como ponto que move a atuação de muitos zoológicos. “O que se observa ao redor do mundo são profissionais apaixonados pela vida selvagem, que fazem de sua atuação uma doação de amor à vida e à luta para a preservação das espécies e seus habitats”, afirma Paloma Bosso.

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Sobre o Parque das Aves

O Parque das Aves é a única instituição do mundo focada na conservação de aves da Mata Atlântica. Possui 16 hectares de mata restaurada, 1.300 aves de 130 espécies diferentes, com três viveiros de imersão e um borboletário. O objetivo do Parque das Aves é atuar investindo significativamente para criar um impacto positivo para as aves da Mata Atlântica, principalmente as 120 espécies e subespécies em risco de extinção.  Saiba mais em: www.parquedasaves.com.br

Sobre a Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil

A Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (AZAB) é uma instituição que agrega os zoológicos e aquários do Brasil, visando seu desenvolvimento integral, melhoria e fortalecimento. Saiba mais em: www.azab.org.br

O Programa Papagaios do Brasil agradece a participação da equipe do Parque das Aves [Paloma Bosso, Benjamin Phalan e Katlin Fernandes] e da Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (AZAB) [Tays Izidoro e Cláudia Igayara] na composição dessa matéria especial.


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