Predação, interferência humana e mudanças climáticas afetam desenvolvimento de filhotes

Ovos do papagaio-de-cara-roxa | Foto: SPVS/Divulgação

O monitoramento contínuo de períodos reprodutivos fornece dados relevantes para a conservação dos psitacídeos. Durante o monitoramento, pesquisadores conseguem acompanhar o desenvolvimento da prole, desde a eclosão dos ovos até o sucesso reprodutivo, quando os filhotes alçam o primeiro voo.  É nessa fase que as aves estão expostas a inúmeros fatores que podem afetar a sua sobrevivência, como a predação natural, doenças, ectoparasitas, interferências humanas no ambiente onde se encontram e a captura de filhotes para o comércio ilegal. 

 Superando essas adversidades, os papagaios atingem a maturidade por volta de dois anos e, a partir dessa idade, estão aptos a parear e buscar cavidades de árvore adequadas para utilizar como ninhos. Desse modo, eles terão condições de ter e cuidar dos seus primeiros filhotes.

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Predadores naturais

A predação faz parte de um ecossistema saudável e pode influenciar o crescimento de uma população. As aves, em geral, têm inúmeros predadores, por isso procuram   locais protegidos para que seus filhotes tenham mais chances de sobreviver.  Para os papagaios, não é diferente:  há inúmeros predadores de ovos e filhotes, como cobras, outras aves e alguns mamíferos. Durante o período de reprodução, os cuidados parentais são intensos para proteger a prole, mas nem sempre é possível.

Ao longo dos anos, a equipe do projeto de conservação do papagaio-de-cara-roxa –executado pela Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) – já registrou diversas predações. Os predadores de ovos mais encontrados foram a caninana (Spilotes pullatus), gralha-azul (Cyanocorax caeruleus), tucano (Ramphastos vitellinus) e o gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris). Os filhotes também são predados por cobras, além de quatis (Nasua nasua), gaviões (Milvago chimachima, Rupornis magnirostris) e gatos-do-mato (Leopardus sp). As abelhas europeias (Apis mellifera) também podem prejudicar a reprodução, quando enxameiam uma cavidade ocupada com ovos, filhotes ou até os adultos, ocasionando a morte de todos que ali estavam.

Caso os filhotes consigam alçar o primeiro voo, os perigos encontram-se fora do ninho. Existe o risco de o filhote cair e ser atacado por lagartos teiús ou por aves de rapina em alerta no momento do voo, que podem capturar o filhote assim que ele abandona o ninho.

Todas essas informações são essenciais para compreender a dinâmica das populações e obter dados científicos para avaliar se uma determinada área está em bom estado de conservação.

Interferências humanas

Desmatamento, caça e tráfico ilegal de animais são algumas das atividades humanas que afetam diretamente o sucesso reprodutivo das aves.

Ao longo do Projeto de Conservação do Papagaio-de-cara-roxa foram observadas inúmeras interferências humanas em sítios reprodutivos e dormitórios: a retirada de árvores utilizadas pela espécie, como o guanandi (Calophyllum brasiliense), no Paraná; e queimada criminosa e desmatamentos de áreas naturais em locais prioritários para a sobrevivência da espécie, no estado de São Paulo. Outra ação criminosa que a equipe observou é o roubo de filhotes dos ninhos para o comércio ilegal de animais silvestres, no âmbito local, nacional ou até internacional. Segundo dados do Ibama, as aves são os animais mais capturados e vendidos no mercado ilegal no Brasil, representando 80% do total. E os psitacídeos estão entre as espécies mais visadas.

Retirar filhotes da natureza é um crime ambiental e impede que eles possam voltar ao seu habitat natural. No caso dos papagaios, um procedimento que pode ocorrer é o encaminhamento para um centro de triagem de fauna e posteriormente a um zoológico, onde o filhote receberá os cuidados necessários e poderá contribuir com a conservação e pesquisa da espécie. Para evitar esse crime ambiental a sociedade precisa entender que não deve retirar animais da natureza. Caso tenha interesse em obter um animal silvestre, é preciso encontrar uma forma legal, buscando criadouros registrados pelo Ibama. Também é necessário avaliar todas as implicações de ter um animal silvestre, mesmo que legalizado, pois esse animal jamais poderá ser solto na natureza. No caso dos papagaios, eles podem viver mais de 40 anos em cativeiro e precisam de cuidados adequados durante esse período.

Para ajudar no combate ao desmatamento e do comércio ilegal de animais silvestres, é possível denunciar de forma anônima e gratuita por meio da Linha Verde do Ibama: 0800-61-8080.

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Mudanças climáticas

O clima afeta diretamente o ciclo da natureza. Nas regiões tropicais os períodos reprodutivos são nas estações de primavera e verão, quando há abundância de alimento, temperaturas mais altas e chuvas mais frequentes. Porém, eventos climáticos extremos podem provocar desastres naturais que prejudicam o período de reprodução, como temperaturas extremas, mudanças nos ciclos de floração e frutificação e até aumento de doenças e parasitas que podem influenciar no desenvolvimento dos filhotes.

Em relação aos papagaios, algumas pesquisas vêm sendo realizadas para avaliar qual o impacto de mudanças climáticas na reprodução e sobrevivência dos filhotes. Entre os anos de 1999 a 2016, o monitoramento reprodutivo do papagaio-de-cara-roxa analisou esse impacto durante o projeto “A influência das Mudanças Climáticas na dinâmica populacional do papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis)”, financiado pela Fundação Grupo Boticário.

Os resultados apresentaram diversas correlações, como a influência da umidade na postura de ovos e no número de filhotes nascidos. O aumento da temperatura tem efeito relevante no sucesso reprodutivo dos filhotes. Para indicar alterações na reprodução da espécie diretamente relacionadas às mudanças climáticas, o Projeto de Conservação do Papagaio-de-cara-roxa mantém as análises e monitoramento continuamente. Contudo, uma conclusão definitiva que podemos tomar é: conservar áreas naturais auxilia a diminuir os efeitos das mudanças climáticas e a preservar espécies.

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