Conheça sobre os projetos de conservação do papagaio-de-peito-roxo e papagaio-charão e como a criação de RPPN foi uma decisiva estratégia para melhores resultados na preservação das espécies.

*Com a colaboração de Nêmora Pauletti Prestes

Papagaio-de-peito-roxo | Foto: Roberta Boss

O papagaio-charão (Amazona pretrei) e papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea) são duas espécies bem diferentes entre si, mas com uma característica em comum: ambas estão ameaçadas de extinção devido, sobretudo, à drástica redução de áreas da Floresta com Araucárias, seu habitat natural.

Para proteger essas emblemáticas espécies e este ecossistema, pessoas, como Nêmora Pauletti Prestes, dedicam muito trabalho e cuidado há décadas. Nêmora é uma das coordenadoras dos projetos de conservação do papagaio-charão e papagaio-de-peito-roxo, especialista de ambas as espécies dentro da Associação dos Amigos do Meio Ambiente (AMA) e do Programa Papagaios do Brasil e integrante do Grupo Assessor Técnico do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Papagaios (PAN Papagaios).

O começo da jornada

O Projeto Charão foi criado em 1991, com o objetivo de conhecer melhor alguns aspectos da biologia, ecologia e hábitos do papagaio-charão que até então parecia ter sido abundante na natureza. Nêmora conta que havia registros na literatura de que poderiam ser encontrados de 10 a 30 mil indivíduos na Estação Ecológica de Aracuri-Esmeralda, localizada no Rio Grande do Sul. Ela relembra que diversos pesquisadores brasileiros e do exterior foram até o local “para ver este evento maravilhoso” [a observação dos indivíduos na natureza]. “Quando nós começamos o Projeto, os papagaios não utilizavam a Estação Ecológica de Aracuri como dormitório-coletivo. Na ocasião, nós registramos apenas oito indivíduos. Isso nos incomodou bastante. […]”, relembra.

A partir daí, foram anos de um trabalho dedicado, no qual pesquisadores passaram a coletar informações sobre reprodução, alimentação e ameaças enfrentadas pela espécie.

Já os estudos sobre o papagaio-de-peito-roxo, começaram há cerca de dez anos, quando os pesquisadores passaram a buscar e compreender o papel da espécie no ambiente, assim como o número de indivíduos, sua distribuição, hábitos alimentares, reprodutivos e comportamentais.

A pesquisadora salienta que os projetos são de longa duração e que trabalhar com espécies por um tempo maior, permite encontrar respostas mais eficazes. Atualmente ambas estão ameaçadas de extinção, sendo que o papagaio-charão está na categoria ‘Vulnerável’ e o papagaio-de-peito-roxo está na categoria ‘Em perigo’, de acordo com a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês) e a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção, o que demanda estratégias direcionadas à redução de ameaças.

Nêmora em trabalho de campo. | Foto: Acervo Pessoal
Primeiro salvamos as matas, em seguida as espécies

Depois de 28 anos do Projeto Charão, em fevereiro de 2018, por meio de uma parceria entre a Universidade de Passo Fundo (UPF) e a Associação Amigos dos Meio Ambiente (AMA) de Carazinho, foi oficialmente inaugurada a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Papagaios-de-Altitude, no sudeste de Santa Catarina. A RPPN é uma importante estratégia de conservação, porque amplia as áreas naturais protegidas no país, em caráter perpétuo, por iniciativa voluntária do setor privado – o que contribui para a proteção da biodiversidade e permite a preservação de espécies raras e endêmicas, a exemplo dos papagaios.

Nêmora explica que a RPPN foi criada em Santa Catarina, pois é na região dos municípios de Urupema, Painel e São Joaquim que se concentram toda a população conhecida do papagaio-charão no período da maturação do pinhão, seu principal alimento no inverno. Nesta região, também estão reunidos mais de 62% de toda a população dos papagaios-de-peito-roxo do Brasil.

A pesquisadora relata ainda que a proteção de áreas naturais talvez seja uma das estratégias mais difíceis de ser colocada em prática quando se trata de ações para a conservação da biodiversidade e, a criação de RPPN é uma boa forma de colaborar com a conservação. No Brasil, em especial no estado do Rio grande do Sul, ainda é tímida esta iniciativa. Alguns outros estados já apresentam essa cultura de criação de áreas privadas. “As campanhas podem ser eficazes, mas proteger ambientes é mais difícil. Como o Brasil não tem essa cultura de oferecer o dinheiro para a compra de terras, a gente teve que buscar este apoio tanto na Holanda quanto nos Estados Unidos, mas muitos brasileiros colaboraram com a campanha que lançamos”, explica ela ao contar sobre o processo de criação da RPPN Papagaios-de-Altitude A compra da área, com pouco mais de 46 hectares, foi possível graças ao apoio de instituições como o Comitê Holandês da IUCN e do Rainforest Trust dos Estados Unidos, além de doações de muitas pessoas e instituições do Brasil, incluindo professores e acadêmicos da UPF. Desses 46 hectares, 36 foram transformados em área de proteção natural.

Equipe do Projeto Charão na RPPN Papagaios-de-Altitude em Urupema, Santa Catarina. Foto: Projeto Charão
Quais são os benefícios de uma área protegida?

Na RPPN Papagaios-de-Altitude já foram feitos registros de outras espécies ameaçadas de extinção, como a onça-parda, cervos, tamanduás, dentre outras. Este é um importante indicativo da qualidade de conservação da floresta, uma vez que, se espécies topo de cadeia encontram boas condições de sobrevivência no local, outras espécies também podem ocorrer – o chamado efeito “guarda-chuva”.

Além desses fatores, a mata em pé fornece serviços ecossistêmicos que não podem ser recriados por máquinas ou pela tecnologia, tais como a proteção de mananciais que fornecem água de qualidade, solo fértil e ar mais puro. Do ponto de vista econômico, Santa Catarina tem se consolidado como um dos hotspots do país para a observação de papagaios, movimentando assim o turismo de observação de fauna silvestre e a economia local, já que a atividade gera empregos e renda que se concentra na região, beneficiando assim os moradores locais e suas famílias.

Planos para o futuro

A RPPN passa por uma estruturação na busca de oferecer uma experiência ainda melhor para os visitantes. “Tivemos o apoio do Parque das Aves para o estabelecimento de uma base de pesquisa e daqui pra frente vamos melhorar a infraestrutura da RPPN, com a construção de uma torre de observação para a fauna e flora silvestres e de algumas pontes para a melhor condução das trilhas. Também queremos fazer algumas placas de orientação e educativas que transmitam mensagens de conservação”, conta Nêmora.

A coordenadora dos Projetos conta ainda que a intenção é manter de forma contínua e cada vez mais intensa, o trabalho com diversos veículos de comunicação, escolas e diferentes setores da sociedade civil, para que os cidadãos entendam mais sobre conservação da natureza e seus benefícios. Ela relata que é preciso reforçar que os papagaios são espécies que têm importância para o ecossistema e que tem mais valor em seus habitats naturais do que em gaiolas. “Se fomos pensar, as aves no contexto da evolução, levaram milhões de anos surgir, voar e consequentemente aprimorar seu vôo, então o homem não deveria ter essa pretensão de manter nenhuma espécie de aves em gaiolas”, completa.

Floresta com Araucária na RPPN Papagaios-de-altitude | Foto: Igor Francisco

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Projeto Charão

Programa Papagaio-de-peito-roxo

Assista também ao episódio da nossa websérie que fala sobre o que são RPPNs e mostra um pouco da RPPN Papagaios-de-Altitude.

Mais informações sobre esta Unidade de Conservação:

Sistema informatizado de monitoria de RPPN ICMBio

WikiParques

RPPN Catarinense

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