Entenda como funciona a rede de tráfico de papagaios no estado e saiba quais são as consequências para a espécie

*por Programa Papagaios do Brasil, com colaboração de Gláucia Seixas

Foto: Dione Sales/PEVRI e Projeto papagaio-verdadeiro

Especialmente pela habilidade para imitar sons, incluindo a fala humana, o papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) é um alvo constante do tráfico de animais silvestres. Sua retirada da natureza está disseminada por todo o país, mas no Mato Grosso do Sul a situação é ainda mais preocupante – a espécie é a ave mais traficada neste estado.

Por este motivo, o Projeto Papagaio-verdadeiro se dedica há 22 anos a desenvolver ações para conservação desta espécie, para prevenção da retira da espécie de seus habitats naturais, para combate ao tráfico e para a conscientização da população e de turistas, sobretudo no Mato Grosso do Sul.  Este trabalho, que ainda inclui uma série de outras atividades essenciais à espécie, foi idealizado e é realizado por Gláucia Seixas e sua equipe.

Gláucia, que é zootecnista e doutora em Ecologia e Conservação da Natureza, é a especialista pela espécie dentro do Programa Papagaios do Brasil, nos contou um pouco sobre essa triste realidade e deu valiosas dicas para denúncias e a manutenção dos papagaios livres na natureza.

O tráfico de papagaios no Mato Grosso do Sul (MS)

Cerca de onze mil filhotes de papagaios-verdadeiros foram apreendidos pela fiscalização ambiental e entregues ao Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), vinculado a Gerencia de Recursos Pesqueiros e Fauna (GPF), do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (IMASUL), nas últimas três décadas¹.

“Esses números representam apenas uma pequena parcela do total de papagaios-verdadeiros retirados da natureza, pois a grande maioria morreu ou não chegou a ser interceptada pela fiscalização. O tráfico se concentra nos filhotes (algumas vezes ovos), retirados dos ninhos ainda pequenos, na maioria das vezes sem penas e com os olhos fechados”*, explica Gláucia.

O tráfico se concentra nos filhotes (algumas vezes ovos), retirados dos ninhos ainda pequenos, na maioria das vezes de sem penas e com os olhos fechados – Gláucia Seixas

A pesquisadora conta que essa “prática” é conhecida, na região onde estuda a espécie, como uma “tradição de pai para filho”. Geralmente são algumas parcelas menos favorecidas da população local, residentes nas áreas rurais ou em locais mais próximos aos ninhos dessa espécie que capturam os animais. No entanto, o lucro deste comércio ilegal não se concentra na mão destas pessoas e sim daqueles que vendem os filhotes aos consumidores finais.

Gláucia observa que, de acordo com diversos autores, existem alguns grupos que mais movimentam o mercado da comercialização ilegal de papagaios-verdadeiros, sendo os criadouros individuais domésticos que mais predominam, dentro e fora do Brasil. Esses, por razões culturais, cultivam o hábito de possuir um papagaio como “pet”, sendo o papagaio-verdadeiro o preferido por muitas pessoas devido à sua facilidade em aprender a fala humana.

Filhotes de papagaios-verdadeiros acondicionados em uma geladeira velha, escondidos em uma chácara (setembro de 2017), apreendidos pela Polícia Militar de Novo Horizonte do Sul. Foto: Sgt José Luiz/PM MS

As consequências do tráfico

Os papagaios capturados de vida livre são submetidos a péssimas condições sanitárias e ao estresse, fatores que podem causar doenças transmissíveis para ouras aves e até mesmo para o ser humano. Outras consequências diretas deste crime ambiental são a diminuição da qualidade e expectativa de vida das aves em cativeiro, já que elas são mantidas em gaiolas apertadas e alimentadas de forma equivocada.

Além disso, para retirada dos filhotes dos ninhos, os traficantes danificam ou derrubam boa parte das árvores que serviam para reprodução dessas aves, as deixando sem condições de reutilização. Segundo Gláucia, são duas perdas irreparáveis para espécie, sendo a primeira a perda do indivíduo (filhote), que deixa de contribuir para a perpetuação da espécie e a segunda a perda do ninho, que fica impossibilitado de receber o casal nos anos seguintes.

Ninho de papagaio-verdadeiro danificado pelo traficante no momento de coleta dos filhotes, na área de estudo do Projeto Papagaio-verdadeiro em MS. Foto: Caio Prates/PPV

A pesquisadora conta que vivencia muitas situações marcantes quando está em atividade de campo, monitorando os ninhos de papagaios. “Todas as vezes que chego perto de um ninho monitorado e verifico que ele foi arrombado, fico angustiada e, ao mesmo tempo, revoltada. Saber que naquela árvore havia um ninho com ovos ou filhotes indefesos, que foram coletados de forma cruel para satisfazer os interesses financeiros ou um ‘falso amor’ pelos papagaios, me deixa muito triste. Muitas vezes encontro os pais ao redor do ninho, onde permanecem por vários dias ou semanas, como se estivesse aguardando o retorno dos filhotes”, conta. “Sempre me pergunto: até quando vou ver tudo isso acontecer? E sigo a luta pela conservação da espécie, acreditando que ‘um dia’ mudaremos essa realidade, ou não veremos mais essas lindas aves, das cores da bandeira do Brasil, nos céus de MS…”, lamenta.

Para aqueles que desejam ter um papagaio em casa, Gláucia alerta: “você sabia que criar em residência um papagaio que nasceu em vida livre é um crime ambiental e pode levar a espécie à extinção? Quando retirados cruelmente do aconchego de seus ninhos e cuidados dos seus pais, eles deixam de voar livremente, formar casais no futuro, gerar seus filhotes e garantir a qualidade e o crescimento natural das suas populações”.

Foto: Gláucia Seixas anilhando um filhote de papagaio-verdadeiro em MS. Foto: Caio Prates/PPV-PdA-Naples Zoo

“Sempre me pergunto: até quando vou ver tudo isso acontecer? E sigo a luta pela conservação da espécie, acreditando que ‘um dia’ mudaremos essa realidade, ou não veremos mais essas lindas aves, das cores da bandeira do Brasil, nos céus de MS…”. – Gláucia Seixas

Agentes de combate

O combate ao tráfico de animais silvestres é realizado por agentes de fiscalização ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), Polícia Militar Ambiental, Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (IMASUL), com a colaboração de outras instituições, como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) quando se trata de áreas protegidas pelo Governo Federal, Polícia Rodoviária Federal (PRF) e Policia Rodoviária Estadual (PRE), quando se trata de apreensões em barreiras nas rodovias.

Gláucia destaca, no entanto, que faltam recursos financeiros e humanos para maior eficiência nas ações de fiscalização. “Em Mato Grosso do Sul é fundamental que os agentes de fiscalização ampliem as ações de fiscalização na região da Bacia Hidrográfica do Rio Paraná e, em especial, no Vale do Rio Ivinhema. Paralelamente, o Projeto Papagaio-verdadeiro, em colaboração com o Parque das Aves, tem ampliado a mobilização/sensibilização da população local e de fora do estado. Afinal, se não houver comprador [ilegal] não haverá coletores desses filhotes de papagaios-verdadeiros no período reprodutivo [entre agosto e dezembro], conhecido na região como ‘período da safra do louro’”, explica.

O que pode ser feito?

Algumas ações simples podem contribuir para a conservação desta e outras espécies de papagaios:

Não compre papagaios capturados na natureza, isso não é uma demonstração de amor.

Denuncie quem captura e comercializa os papagaios e outros animais silvestres. Se suspeitar de atividades ilegais envolvendo a fauna, ligue para as instituições de fiscalização do seu estado (Polícia Militar Ambiental ou Instituição Ambiental Estadual) ou denuncie pela Linha Verde do IBAMA: 0800 618080. A ligação é gratuita e anônima.

Compartilhe publicações, artigos e informações sobre a fauna brasileira em suas redes sociais e se posicione contra o tráfico de animais.

O Projeto Papagaio-verdadeiro é atualmente executado pelo Parque das Aves e co-executado pela Fundação Neotrópica do Brasil. Para mais informações e saber como você pode apoiar, acesse o site da iniciativa. Acompanhe também através da página do Facebook.

LEIA TAMBÉM: Se o tráfico de animais silvestres está a um clique, a solução também está

¹FELÍCIO, A. P. Coordenadora da Unidade de Fauna, da Gerencia de Recursos Pesqueiros e Fauna, do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul. Dados dos animais recepcionados pelo CRAS GPF IMASUL MS de 1988 a 2018.

*Esses dados também são confirmados por outras instituições que se dedicam ao combate ao tráfico de animais silvestres, como o Renctas. Clique para saber qual é a rota do tráfico de animais silvestres no Brasil.


0 comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *