A falta de informação ainda faz com que a população acredite erroneamente que o tráfico e posse ilegal de animais silvestres são benéficos a alguém

Autoria: Marina Cioato

112 filhotes de papagaios-verdadeiros apreendidos em Minas Gerais. (Foto: Nara Ponte/CRAS IMASUL MS)

O atual cenário brasileiro nos mostra que 38 milhões de animais silvestres são retiradas do país por ano, movimentando uma economia de 10 a 20 bilhões de dólares. A estimativa é de que a cada 100 animais, 70 sejam comercializados no Brasil, sendo a maioria aves. Esses dados tornam a caça e o comércio de fauna a terceira atividade ilícita mais lucrativa do mundo, perdendo apenas para o tráfico de drogas e armas [Acesse aos dados na íntegra].

Enganosamente estes dados podem nos levar a crer que o tráfico de animais movimenta a economia, gerando lucro a parcelas menos favorecidas e que, por esta razão, não deveríamos nos opor. Entretanto, além de ser um crime ambiental e uma crueldade aos animais é também, uma forma de exploração de pessoas menos favorecidas da sociedade.  O filme “E Agora?” [Assista aqui ao documentário], traça um panorama desta atividade no país e nos mostra que um papagaio retirado da natureza gera ao responsável pela captura apenas R$ 4,00, enquanto a média de sua venda na internet é de pelo menos R$200,00 – algumas outras espécies de aves chegam a custar 85 mil reais. Ou seja, como qualquer atividade ilícita, favorece a continuidade de problemas sociais graves, pois o dinheiro não se concentra nas classes mais baixas.

Por outro lado, apenas a título de comparação, o turismo de observação de onças no Pantanal gera uma receita estimada em sete milhões de dólares anuais. Enquanto a observação de aves gerou em apenas três meses ao Acre, uma receita de 50 mil reais. Em perspectiva nacional, os visitantes de Unidades de Conservação movimentaram, segundo o dado mais recente, uma receita de 2 bilhões de reais e mais de 36 mil empregos diretos em um ano [acesse mais dados].  Essas atividades, além de contribuírem com a manutenção da vida silvestre em ambiente natural, geram renda aos moradores do entorno de áreas naturais protegidas, por meio do turismo de natureza e possibilitam a capacitação e desenvolvimento pessoal – ciclo conhecido como Produção de Natureza [Saiba mais sobre este conceito].

Para quem ainda acredita que o tráfico de animais silvestres é uma atividade que acontece às escuras e que por isso temos poucas possibilidades de ação, é necessário esclarecer que 55% dos negócios ilegais acontecem por meio de redes sociais e sites e-commerce, sendo o Facebook o principal canal de venda (58% de casos). [Conheça esta pesquisa].

34 filhotes de papagaios apreendidos em Mato Grosso do Sul (Foto: Anderson – Polícia Ambiental)

O desejo de ter um animal de estimação silvestre faz com que, em média, a cada 10 espécies traficadas, apenas uma sobreviva.  Além disso, a sensação de impunidade faz com que os traficantes também falsifiquem anilhas de controle, vendendo, como se fossem lícitas, 80% das espécies à disposição no mercado de criadores [acesse aqui mais informações].

No país que abriga a maior biodiversidade do mundo e em que 93% da população é contra a liberação da caça de animais silvestres [Conheça essa pesquisa], qual o argumento para os números do tráfico ainda sejam tão altos? Se o crime está a apenas um clique de nossos olhos, por que ainda não reagimos a esta atividade?

A resposta está no fato de que alguém sempre ganha com isso. Este mercado ilegal movimenta recursos multimilionários para a indústria que produz gaiolas e alimentos, para os exploradores que confiscam aves para competição de canto, para os colecionadores “que adquirem as espécies nativas de forma ilegal” e para tantas pessoas e empresas que veem neste comércio clandestino uma forma de obter lucro rápido.

Assim como o comércio está a um clique, a solução também pode estar. O Brasil possui legislação específica para combate a esta atividade e as formas de denúncia estão ao alcance de qualquer cidadão. Não podemos esperar apenas a ação do poder público se não fizermos a nossa parte. É necessário e possível denunciar. Acreditar que essa prática ilegal não é de nossa responsabilidade é um verdadeiro engano.

Se você faz parte dos 93% que é contrário à caça, também se posicione contra o tráfico e a posse ilegal de animais silvestres. Denuncie pelo telefone 0800-61-8080 e espalhe essa informação.

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