Birdwatching: as experiências e dicas de quem entende do assunto

Birdwatching: as experiências e dicas de quem entende do assunto

Confira algumas dicas de dois profissionais que praticam a observação de aves há alguns anos e veja como aprimorar seus conhecimentos na prática.

O que Zig Koch, fotógrafo de natureza, e Renato Paiva, guia de birdwatching, têm em comum? Além da paixão pela natureza, os dois compartilham do olhar curioso e apurado para identificar aves em áreas naturais. 

O paranaense Zig Koch é fotógrafo de natureza desde o início dos anos 80, mais precisamente em 1982, quando fez um curso de observação de aves com Pedro Scherer Neto, renomado ornitólogo curitibano. Desde então, Zig passou a estudar mais sobre flora e fauna como autodidata e coleciona prêmios nacionais e internacionais de fotografia de natureza. A paixão pela natureza é um legado de família, já que seus pais eram praticantes do montanhismo e Zig cresceu ao redor do Pico Marumbi, no Paraná.

Renato trabalha há 19 anos no Parque Estadual de Intervales, localizado em Ribeirão Grande/SP, sendo oito deles como guia de birdwatching. Sua trajetória começou como assistente de pesquisadores do Parque e aos poucos, a partir desta atividade, foi desenvolvendo seu interesse pela observação de aves. Atualmente, trabalha com visitas guiadas em Intervales, atendendo turistas brasileiros e estrangeiros, e já contabiliza mais de 400 espécies de aves diferentes registradas ao longo de sua carreira como guia. 

Alçando voo na arte de passarinhar

Ambos os profissionais acreditam que não é preciso de muito para começar a observar aves. “Só precisa de um pedacinho do seu quintal e do seu celular para você fazer uma filmagem ou fotografar e fazer o registro da espécie”, explica o guia. 

O fotógrafo concorda e dá a dica: “Se você colocar uma banana ou um mamão no quintal da sua casa, é só sentar e esperar para ver [as aves], principalmente agora no inverno”. 

Para aqueles que estão começando, não é necessário investir muito em um primeiro momento. Renato explica que é importante saber onde você deseja chegar e entender se deseja ser um fotógrafo de natureza, um amador ou um guia de observação de aves, etc. 

Só precisa de um pedacinho do seu quintal e do seu celular para você fazer uma filmagem ou fotografar e fazer o registro da espécie” – Renato Paiva, guia de birdwatching.

Observação de papagaios na natureza

Zig conta que acompanha o Projeto de Conservação do Papagaio-de-cara-roxa, desenvolvido no litoral paranaense pela Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), desde o início, em 1998. “Esse projeto tem uma força muito grande na questão da preservação dos remanescentes de floresta da região de Paranaguá e Guaraqueçaba e é um apelo turístico muito bom”, relata.

O fotógrafo também esteve presente em algumas edições do censo anual do papagaio-de-cara-roxa e registrou momentos da contagem das aves na natureza. “Eu participei de contagens e é uma coisa muito legal. Além de acompanhar os técnicos, tem a questão de fotografar eles [os papagaios] chegando na ilha que é uma cena imperdível. É fascinante ver casais, trios ou centenas de papagaios chegando no lugar de dormitório”, conta.

Renato comenta que ainda não viu um papagaio em Intervales, mas que já avistou diversas outras espécies pertencentes à mesma família. “Já vi papagaios na Ilha Comprida. Conheço o papagaio-de-cara-roxa e o de peito-roxo”, afirma.

As atividades técnicas e visitas a locais com diferentes espécies de aves oportunizam conhecimentos que podem ser replicados por outras pessoas, como os fotógrafos de natureza, por exemplo. Somado a isso, a quantificação de espécies é fundamental para identificar pontos prioritários em ações de conservação e quais pontos são interessantes para a visitação de turistas. Para saber mais sobre o censo, confira o artigo “Qual a importância de saber quantos papagaios de uma espécie habitam parte do nosso país?“.

papagaio na natureza
Papagaio-chauá na natureza, por Marina Somenzari.

Uso de aplicativos e playback

Para os mais experientes na arte de passarinhar, o uso de playback e de aplicativos que reproduzem a vocalização das aves não é uma novidade, mas será que essas ferramentas são legais? Renato afirma que sim e incentiva o uso desses recursos, mas salienta que é importante dosar o uso para não atrapalhar a observação de aves. “Se você insistir, insistir e insistir no playback, ela [a ave observada] vai começar a perceber que não é nada e você vai atrapalhar as outras pessoas que queiram ver aquela ave, porque ela vai estar acostumada com o playback e não vai aparecer mais”. 

Quanto ao volume adequado para utilizar o playback, o guia explica que depende do lugar em que a ave está. “Se ela está passando muito alto, é legal que você use o som alto para ele conseguir ouvir. Agora se for uma distância pequena, não é necessário que seja tão alto. Tem que ser um volume que dê para o passarinho ouvir”, orienta.

Outro cuidado, é no período reprodutivo de determinadas espécies de aves, pois algumas podem ser atraídas pelo playback e consequentemente deixar os ovos ou filhotes sozinhos nos ninhos, o que pode levar a uma predação. Por isso tenha bom senso no uso do playback!

Para receber mais informações, tirar dúvidas e pesquisar pelas vocalizações de diferentes espécies, você pode acessar o WikiAves ou o e-Bird.

Dicas para fazer registros melhores

Os melhores horários para avistar aves em geral, incluindo os papagaios, é ao amanhecer e ao entardecer até o começo da noite (após às 16h), períodos nos quais eles estão mais ativos, vocalizando ou se deslocando pelas áreas naturais em busca de alimento ou abrigo.  

Segundo o guia, é mais fácil e rápido localizar as aves durante o voo. “Nas copas existem muitas folhas, é preciso de binóculos bons e gastar um tempo maior para conseguir localizar”, explica.

Mas atenção: se você deseja registrar papagaios é preciso se preparar antes. “Os papagaios não permitem muita aproximação. É preciso ter um planejamento grande para conseguir fotografar de perto e principalmente paciência para observar até mesmo por algumas horas, dependo da raridade da espécie que você estiver tentando registrar. É preciso conseguir um lugar em que eles estejam se alimentando para buscar uma boa foto ”, alerta Zig. 

Ele também conta que os papagaios são bastante desconfiados e tendem a se afastar ao ouvir o clique da câmera. Sendo assim, como fazer uma foto realmente boa de aves? “A primeira coisa é sempre estudar o objeto da sua fotografia. Cada ave, como qualquer animal, tem comportamentos diferentes. A primeira coisa é entender o comportamento do bicho. Com isso, você vai definir o equipamento que você precisa e as técnicas são as comuns de fotografia: velocidade, ISO e abertura são coisas que funcionam para qualquer tipo de fotografia. O principal é saber qual equipamento você usar e o tipo de foto que você precisa”, orienta.

Se você não possui uma câmera fotográfica profissional, não se preocupe! O fotógrafo explica que os smartphones estão cada vez mais sofisticados e são versáteis, capazes de fazer fotos com boa qualidade, principalmente de paisagens. Se você procura um resultado mais detalhado e em alta qualidade, nesse caso é interessante buscar um equipamento profissional.

Se você chegou até esta etapa e encontrou indivíduos que deseja registrar, é fundamental cuidar para interferir de forma danosa nos locais utilizados pelas aves como lar. Também é importante evitar interação de forma muito próxima ou expor as espécies ao contato humano por muito tempo, uma vez que a distância entre os animais silvestres e os seres humanos é o que permite a preservação de seus comportamentos habituais e, portanto, sua existência na natureza.

LEIA TAMBÉM: Como observar papagaios (e outras aves) na natureza pode transformar a sua visão de mundo

O significado de observar aves

“É um prazer muito grande, mas por trás desse prazer tem uma questão importante que é o entendimento de como funcionam as relações da natureza. As aves fazem parte do grupo de animais mais fáceis de ver, “é a primeira forma de uma pessoa ter contato com a natureza. Ela vai se preocupar em ter um ambiente saudável para conseguir ver as aves que ela quer; fazer um turismo saudável no qual ela vai caminhar e conhecer pessoas com objetivos comuns, geralmente pessoas que têm um carinho especial pela natureza. Para mim, todo o processo de observação de aves é muito prazeroso, tanto pela questão de conhecimento quanto pela questão de estar em contato com a natureza”, relata o fotógrafo.

“Uma vez foi curioso porque eu tinha uma barraquinha com furos e um dos furos apontados para o ninho. Aí vieram os pais [casal de papagaios] e começaram a ‘conversar’ perto de mim. E parece uma conversa mesmo. E eu ficava imaginando o que será que eles estavam conversando entre eles. Será que a frutinha de lá era melhor que a outra? E eu comecei a ter um ataque de riso dentro da barraca (risos). Foi muito engraçado”, conta aos risos.

“A fotografia pra mim é sempre um desafio e isso a torna mais prazerosa, porque não é uma coisa rotineira que você faz sempre igual. Esse desafio de fotografar o papagaio em campo é uma coisa muito legal”, conclui.

Para o guia, não é possível “se acostumar” à beleza da natureza e aos cantos e encantos das aves. Renato explica que turistas viajam de todo o mundo para o Brasil para ter a oportunidade de ver belas aves mais de perto em Intervales, Parque que atrai uma infinidade de aves raras e que está localizado no coração no maior remanescente contínuo e bem preservado de Mata Atlântica do mundo, região batizada de Grande Reserva Mata Atlântica e que passa pelos estados do Paraná, Santa Catarina e São Paulo.

“As aves fazem parte do grupo de animais mais fáceis de ver, “é a primeira forma de uma pessoa ter contato com a natureza.” – Zig Koch, fotógrafo de natureza.

Locais para praticar o birdwatching

Se você deseja conhecer o Parque Estadual de Intervales e quer incluir novas espécies na sua lista de registros, pode contratar os serviços do guia Renato Paiva, através do telefone (15) 99745-9750.

Além disso, você pode observar a revoada dos papagaios na Ilha do Pinheiro, no Parque Nacional do Superagui e optar por contratar os serviços de guias locais. Para mais informações sobre essa Unidade de Conservação, acesse o site do ICMBio.

Se você deseja aprimorar suas técnicas de fotografia para fazer registros cada vez profissionais, Zig Koch oferece as chamadas vivências fotográficas, na qual viaja com um pequeno grupo de pessoas interessadas em natureza e fotografia para visitar diversos lugares no Brasil e em outros países. Para consultar as oportunidades disponíveis, acesse: http://www.zigkoch.com.br